25/06/2026 às 19:31

O que a genética está revelando sobre a endometriose e por que isso reforça a importância da fisioterapia pélvica?

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A endometriose sempre foi considerada uma doença complexa. Hoje, a ciência mostra que ela é ainda mais abrangente do que imaginávamos.

Recentemente, um dos maiores estudos genéticos já realizados sobre a doença analisou dados de aproximadamente 1,4 milhão de mulheres, incluindo mais de 105 mil mulheres com endometriose. Os pesquisadores identificaram 80 regiões do genoma associadas ao risco de desenvolver endometriose, sendo 37 descobertas inéditas, além de cinco variantes genéticas relacionadas à adenomiose.

Esses resultados representam um grande avanço na compreensão da doença e reforçam algo que a prática clínica já demonstrava: a endometriose não é apenas uma doença ginecológica, mas uma condição sistêmica que envolve diversos sistemas do organismo.

Afinal, o que isso significa?

Ter uma predisposição genética não significa que uma mulher desenvolverá obrigatoriamente endometriose. Os genes aumentam o risco, mas fatores hormonais, imunológicos, inflamatórios e ambientais também participam do desenvolvimento da doença.

O estudo mostrou que muitos dos genes identificados estão relacionados a processos como:

  • resposta inflamatória;
  • funcionamento do sistema imunológico;
  • regulação hormonal;
  • cicatrização e remodelação dos tecidos;
  • desenvolvimento vascular;
  • percepção e processamento da dor.

Isso ajuda a explicar por que duas mulheres com lesões semelhantes podem apresentar sintomas completamente diferentes. Enquanto algumas convivem com poucos sintomas, outras apresentam dor intensa e incapacitante.

A dor da endometriose vai muito além das lesões:

Durante muito tempo acreditou-se que a intensidade da dor era proporcional ao tamanho das lesões.

Hoje sabemos que isso nem sempre acontece.

Diversos estudos demonstram que a dor na endometriose é resultado da interação entre:

  • inflamação persistente;
  • sensibilização do sistema nervoso;
  • alterações musculares;
  • restrições fasciais;
  • mecanismos centrais de amplificação da dor.

Ou seja, o cérebro, os nervos, os músculos e os tecidos passam a responder de forma diferente aos estímulos dolorosos.

Esse processo é conhecido como sensibilização central e explica por que algumas mulheres continuam sentindo dor mesmo após cirurgia ou tratamento hormonal.

Onde entra a fisioterapia pélvica?

É importante esclarecer que a fisioterapia não elimina as lesões da endometriose.

O objetivo é tratar as alterações funcionais provocadas pela doença e reduzir o impacto dela na qualidade de vida.

Entre as alterações mais frequentes encontramos:

  • hipertonia da musculatura do assoalho pélvico;
  • espasmos musculares;
  • dor durante a relação sexual (dispareunia);
  • dor pélvica crônica;
  • alterações intestinais;
  • sintomas urinários;
  • redução da mobilidade da pelve e do quadril;
  • alterações respiratórias e posturais decorrentes da dor.

Como a fisioterapia ajuda?

O tratamento é individualizado e pode incluir:

Terapia manual: Visa reduzir tensões musculares, melhorar a mobilidade dos tecidos e diminuir pontos de dor.

Exercícios terapêuticos: Promovem melhora da coordenação entre respiração, abdome, pelve e assoalho pélvico, além de restaurar o movimento de forma segura.

Treinamento do assoalho pélvico: Nem toda mulher com endometriose apresenta fraqueza muscular. Na verdade, muitas apresentam músculos excessivamente contraídos, sendo necessário primeiro restaurar o relaxamento muscular antes de iniciar qualquer fortalecimento.

Educação em dor: Entender como o sistema nervoso participa da dor reduz medo, melhora a adesão ao tratamento e favorece melhores resultados.

Reabilitação funcional: O objetivo final é devolver qualidade de vida para que a mulher consiga trabalhar, praticar atividade física, dormir melhor e retomar suas atividades diárias com menos dor.

O tratamento da endometriose precisa ser multidisciplinar

Como a doença envolve diferentes mecanismos biológicos, nenhum profissional consegue tratar todos os aspectos sozinho. O melhor cuidado costuma envolver uma equipe formada por:

  • ginecologista;
  • fisioterapeuta pélvico;
  • nutricionista;
  • psicólogo;
  • especialista em dor quando necessário.

Essa abordagem integrada oferece melhores resultados no controle dos sintomas e na qualidade de vida.

O que dizem as evidências científicas?

As pesquisas mais recentes demonstram que a fisioterapia pélvica possui evidências consistentes para o tratamento da dor associada à endometriose.

Estudos mostram benefícios como:

  • redução da dor pélvica;
  • melhora da dor durante as relações sexuais;
  • diminuição da tensão muscular do assoalho pélvico;
  • melhora da função intestinal e urinária;
  • aumento da qualidade de vida;
  • melhora da capacidade funcional.

As diretrizes internacionais da European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE) recomendam que mulheres com dor persistente relacionada à endometriose sejam encaminhadas para tratamento multidisciplinar, incluindo fisioterapia, especialmente quando há comprometimento musculoesquelético.

A ciência está mudando a forma como enxergamos a endometriose. A descoberta de novos genes não significa que exista uma cura genética próxima. Mas representa um enorme avanço para compreendermos por que a doença é tão complexa e por que ela se manifesta de maneira diferente em cada mulher. Cada nova evidência reforça a necessidade de um tratamento individualizado, baseado em ciência e centrado na paciente.

A fisioterapia pélvica faz parte desse cuidado, ajudando a controlar a dor, restaurar a função e devolver qualidade de vida para mulheres que convivem diariamente com a endometriose.

Referências científicas

  • International Endometriosis Genetics Consortium. Genome-wide meta-analysis of endometriosis and adenomyosis identifies novel genetic risk loci and biological pathways. Nature Genetics. 2025.
  • European Society of Human Reproduction and Embryology. ESHRE Guideline: Endometriosis. 2022 (atualizada em 2024).
  • International Pelvic Pain Society. Clinical guidance on chronic pelvic pain and multidisciplinary management.
  • International Association for the Study of Pain. Pain education and mechanisms of central sensitization.
  • Awad A, et al. Conservative interventions for endometriosis-related pain: systematic review and meta-analysis. Archives of Gynecology and Obstetrics. 2023.
  • International Continence Society>. Terminology and pelvic floor rehabilitation recommendations.


25 Jun 2026

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