A perda de urina durante a gestação e após o parto é uma queixa muito comum entre as mulheres. Muitas acreditam que "faz parte da gravidez" ou que "é normal depois que o bebê nasce".
Mas será que isso é verdade?
A resposta é: não.
Embora seja frequente, a perda urinária não deve ser considerada normal. Ela é um sinal de que o sistema responsável pela continência urinária está sobrecarregado ou funcionando de forma inadequada e merece atenção.
Por que isso acontece?
Durante a gestação, o corpo passa por diversas adaptações que aumentam o risco de incontinência urinária:
- aumento do peso do bebê sobre a pelve;
- alterações hormonais que deixam os tecidos mais flexíveis;
- maior pressão sobre a bexiga;
- mudanças na postura e na mecânica corporal;
- necessidade de maior trabalho dos músculos do assoalho pélvico.
Após o parto, especialmente nas primeiras semanas, esses músculos podem permanecer enfraquecidos, alongados ou com dificuldade de coordenar sua função, favorecendo os escapes de urina.
Quais são os tipos mais comuns?
A forma mais frequente é a incontinência urinária de esforço, quando a urina escapa ao:
- tossir;
- espirrar;
- rir;
- correr;
- levantar peso;
- praticar atividade física.
Algumas mulheres também apresentam urgência urinária, aquela vontade muito forte e repentina de urinar, podendo não conseguir chegar ao banheiro a tempo.
É só fortalecer o assoalho pélvico?
Não. Esse é um dos maiores mitos.
Nem toda mulher precisa apenas "fazer exercícios de Kegel". Em muitos casos, o assoalho pélvico pode estar excessivamente tenso, pouco coordenado ou trabalhando de forma inadequada.
Antes de iniciar qualquer exercício, é fundamental realizar uma avaliação individualizada.
O tratamento pode incluir:
- treinamento da musculatura do assoalho pélvico;
- exercícios de coordenação entre respiração, abdome e períneo;
- orientações comportamentais;
- reeducação vesical;
- treinamento funcional;
- terapia manual quando indicada;
- biofeedback e eletroterapia em casos específicos.
A fisioterapia realmente funciona?
Sim.
Diversos estudos científicos demonstram que o treinamento supervisionado da musculatura do assoalho pélvico é considerado o tratamento de primeira linha para prevenir e tratar a incontinência urinária durante a gestação e após o parto.
Quando iniciado precocemente, ele pode:
- reduzir significativamente os episódios de perda urinária;
- melhorar a força e a coordenação do assoalho pélvico;
- diminuir o impacto na qualidade de vida;
- prevenir que o problema persista nos anos seguintes.
Quando procurar ajuda?
Você deve procurar uma avaliação se:
- perde urina durante a gravidez;
- continua perdendo urina após o parto;
- utiliza absorventes por causa dos escapes;
- evita exercícios físicos por medo de perder urina;
- sente urgência para urinar com frequência;
- acorda várias vezes durante a noite para urinar;
- percebe sensação de peso ou pressão na região íntima.
Quanto mais cedo o tratamento for iniciado, melhores costumam ser os resultados.
Perder urina durante a gestação ou após o parto é comum, mas não é normal. Esse sintoma não deve ser ignorado nem tratado como uma consequência inevitável da maternidade.
A fisioterapia pélvica oferece uma abordagem baseada em evidências científicas para avaliar a causa da perda urinária e desenvolver um tratamento individualizado, permitindo que a mulher retome suas atividades com conforto, segurança e qualidade de vida.
Se você está grávida ou já teve seu bebê e apresenta qualquer episódio de perda urinária, saiba que existe tratamento. Cuidar do assoalho pélvico é investir na sua saúde hoje e no futuro.
Referências científicas
- Woodley SJ, et al. Pelvic floor muscle training for preventing and treating urinary and faecal incontinence in antenatal and postnatal women. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2020.
- Haylen BT, et al. An International Urogynecological Association (IUGA)/International Continence Society (ICS) Joint Report on the terminology for female pelvic floor dysfunction. Neurourology and Urodynamics. 2010.
- Dumoulin C, et al. 2023 International Consultation on Incontinence Evidence-Based Recommendations for Conservative Management. International Continence Society.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Pelvic floor dysfunction: prevention and non-surgical management. 2021.